Fátima Caçador (JNegócios): Portugal Nearshore – Ganhar escala no mercado doméstico para internacionalizar
2010.6.11

 

Os pontos fortes de Portugal face à concorrência europeia e as fragilidades estão identificados, mostrando potencial para que Portugal se afirme como um destino de projectos e centros de competência a nível internacional.

As competências e os baixos custos de instalação e operação estão no topo da lista das razões que justificam o investimento de várias empresas internacionais na criação de centros de competência em Portugal, para gerirem serviços para vários pontos do mundo, sobretudo na área de outsourcing de Tecnologias de Informação (IT) e do BPO (Business Process Outsourcing).

Adidas, Cisco, IBM, Lógica, Microsoft, Siemens e Accenture contam-se entre os casos de sucesso mais referenciados, mas não são únicos. E o objectivo é multiplicar estas experiências, ajudando a ganhar massa crítica e a colocar Portugal no quadro competitivo internacional.

Uma análise do Everest Research Institute mostra que cerca de 90 países se estão a posicionar nesta área, explorando nichos de mercado especializados, ou potenciando as suas vantagens em termos de baixos custos. O consultor Bharat Vagadia, membro da direcção da Associação de outsourcing do Reino Unido, defende que neste cenário Portugal terá de conseguir encontrar um ponto de diferenciação para se "colocar no mapa". Ou seja, uma área em que seja reconhecido pela qualidade e competitividade. E cita casos como o do Sri Lanka, que se especializou em fornecer serviços legais baseados na lei britânica.

As competências a nível linguístico e de tecnologias de informação, assim como a proximidade cultural com os grandes compradores de outsourcing do Norte da Europa contam a favor de Portugal. Mas é preciso ganhar mais maturidade e massa critica no mercado doméstico, para potenciar as vantagens, e eliminar ou reduzir, as barreiras ao investimento.

Frederico Moreira Rato, que preside à Associação Portugal Outsourcing, acredita que "Portugal tem potencial para ser um destino competitivo para a prestação de serviços de nearshore outsourcing, embora admita que há desafios futuros a ultrapassar para que Portugal reúna condições para se posicionar no radar internacional do sector". Na visão da associação, que reúne as principais empresas do sector, a aposta na internacionalização será uma das principais vias de crescimento do outsourcing. Mas esta via deve ser gerida em conjunto com projectos na Administração Pública, no mercado português, onde o potencial está por desenvolver.

O sector de outsourcing com recurso às tecnologias da informação e comunicação gera mais de 1.000 milhões de euros de volume de negócios por ano, em Portugal, o que representa cerca de 0,66% do PIB. Mas a associação estima que este valor pode subir aos 1,3% em seis anos, originando ganhos de produtividade superiores a 1.500 milhões de euros e criando 12 mil novos postos de trabalho líquidos.

Até 2015 o objectivo é atingir mais de 1.300 milhões de euros em exportações, dinamizando a estratégia de colocar Portugal na lista dos países mais competitivos nesta área.

Tirar partida da qualidade

Para José Cruz, director de Business Transformation Outsourcing da IBM Portugal, o sector do outsourcing poderá não só ajudar a solucionar o problema do desemprego, mas também contribuir para que à sua volta se desenvolvam outros serviços de valor acrescentado. "A qualidade existe e é reconhecida internacionalmente", refere este responsável, falando como conhecimento de causa de quem mantém em Portugal um dos maiores centros de BPO.

Embora a concorrência externa nos serviços de menor valor acrescentado seja forte, devido aos baixos custos, há áreas onde Portugal pode ser competitivo. “Temos condições para nos tornarmos o centro por excelência de nearshore outsourcing, pois apesar de custos menos atractivos que o offshore na prática conseguimos ultrapassa as barreiras existentes deste último, na adequação de requisitos e na capacidade de garantir o acompanhamento do serviço prestado", defende Carlos Alexandre Lourenço, Managing Director de Outsourcing da Lógica.

A crise económica tem dado uma ajuda para que muitas empresas olhem para o outsourcing como uma forma de reduzir custos e melhorar processos. Miguel Ferreira, o CEO da Reditus, afirma que o sector está a crescer em contra-ciclo com a economia e que esta tendência se reflectiu nos resultados desta área de negócios do Grupo em 2009.

O crescimento reflecte-se na introdução de modelos de serviço capazes de gerar mais valor para as partes envolvidas, como aponta Vítor Lopes, Associate Executive da Novabase. Até porque a externalização de serviços tem vindo progressivamente a ser adoptada pela maioria das grandes e médias empresas em Portugal, seja em larga escala ou de forma selectiva.

Para dar o salto desejado há que conseguir conquistar mais empresas para este modelo de negócio, mas também definir estratégias de aposta a nível internacional Frederico Moreira Rato admite que é preciso um estudo "para sabermos onde nos comportamos melhor e nos diferenciamos mais", restringindo a oferta que é ainda demasiado aberta.

A partir daí a Associação pretende desenvolver programas específicos com o AICEP para vender Portugal, a nível internacional, como centro de ousourcing.

 

CASOS DE SUCESSO DE OUTSOURCING MULTINACIONAL EM PORTUGAL

 

ADIDAS

O Centro de serviços financeiros da Adidas, no Porto, é um dos mais recentes projectos de investimento internacional na área de BPO. O núcleo ficará localizado na Mala e integra um conjunto de centros que o Grupo tem a nível mundial e que prestam apoio às actividades contabilísticas centrais da multinacional alemã.

ACCENTURE

A Accenture tem já um histórico importante na prestação de serviços em outsourcing para fora do País. Neste momento, presta serviços com base em Portugal para países como a Suíça, França, Brasil, Tunísia, Holanda, Bélgica, Espanha e Canadá, tanto na manutenção e desenvolvimento SAP e em tecnologias Java e dot.net, como nas áreas de outsourcing de processos, especificamente nas áreas de gestão de Recursos Humanos, Contabilidade e em alguns processos específicos. No total estas operações envolvem cerca de 400 colaboradores.

IBM

A IBM mantém desde 2006 um centro de transformação de negócio, em Braga, O centro presta um serviço de Financial and Accounting para a Unilever Portugal, Espanha e França, em regime de outsourcing. O centro funciona também como a sede da equipa de Data Mining e Business Analytics de todo o contrato europeu, cujas principais funções se caracterizam pela análise da informação produzida pelos processos de backoffíce. Os serviços de voz de Suporte Técnico para clientes finais de produtos da maior marca mundial de Consumer Electronics estão também localizados no mesmo centro, que emprega cerca de 300 pessoas.

LÓGICA

A Lógica tem neste momento o centro de competências IUCC (Internacional Utilities Competence Center) baseado em Lisboa. A empresa tem vindo a reforçar a sua posição nesta área com o crescimento na área de Energia e Utilites, mas também no sector público e telecomunicações e transportes. As áreas de Infraestructure Management, Application Management, Document Services e BPO são as principais ofertas, mas para breve a Lógica promete novas propostas para o mercado empresarial. A área do IT Outsourcing emprega 530 pessoas e desenvolve cerca de duas dezenas de projectos em nearshore.

NOVABASE

A Novabase presta serviços de Outsourcing a organizações no estrangeiro, a partir do seu centro de nearshore localizado em Portugal. Estes negócios foram obtidos nalguns casos directamente, noutros através do processo "follow the customer". O número de colaboradores envolvidos ronda uma centena.

REDITUS

A Reditus já trabalha com diversos clientes no estrangeiro a partir de Portugal. Entre os contratos que podem ser divulgados conta-se o apoio às operações da Worten em Espanha, a partir do centro de serviços de Castelo Branco. A Reditus também presta serviços a empresas internacionais na Europa, a partir da sua Software Factory, na Covilhã, e colabora com empresas internacionais nos centros de competências que têm instalados em Portugal.

SIEMENS

A Siemens Portugal tem sete centros de competência, que empregam 300 colaboradores. O maior é o Global Shared Services Accounting & Finance (GSS A&F), que emprega 200 pessoas e presta serviços financeiros a 45 afiliadas do Grupo, em 14 países europeus. O Global Shared Services Human Resources presta serviços na área dos RH a Espanha, França, Itália, Suíça, Luxemburgo, Bélgica e Grécia. O Service Center Ibéria, faz a manutenção e montagem para equipamentos e sistemas de Alta Tensão da Península. E há ainda o Centro de Competência para a Manutenção de Turbinas Industriais, o Centro para Instrumentação e Controlo de Centrais e o Centro de Competência para Instrumentação e Controlo de Centrais. A Siemens Portugal ganhou também o contrato para a construção de dois terminais aeroportuários temporários, na África do Sul, que estarão operacionais durante o Campeonato do Mundo de Futebol.


Fonte: Jornal de Negócios

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